Escrevi a minha primeira canção aos 13 anos, "Sem nome, nem vida". Naquele dia criei um tema dedicado ao vazio do modo mais intuitivo possível; naquele instante nem a ideia de escrever uma canção me passava pela cabeça, inventei aquela melodia como se estivesse a respirar. Com a mesma naturalidade fui depois criando outras canções que levei a festivais e concursos ... e que surpresa para mim, sempre trazia um prémio para casa! Para uma adolescente, naquela altura, esta descoberta e este crescimento foi fundamental para saber e entender concretamente o que é um sonho, desde a sua criação até à sua concretização e celebração.

Ao entrar no Conservatório de Música do Porto aos 18 anos, e ao estudar composição com o professor Fernando Lapa, esse sonho ganhou outra dimensão, pois eu estava agora no campo da grande Arte! Se por um lado foi revelador entender os princípios da Música Clássica, por outro lado, o estudo e análise da Música Clássica, levou-me mais tarde, já eu estudava na ESMAE, a sentir que a minha música, de tão simples que era, não tinha a qualidade que deveria ter. Acreditei então nessa ideia e dediquei-me por inteiro ao meu desenvolvimento enquanto intérprete, abraçando o mais intensamente possível cada palavra que cantava, dando voz à Poesia e aos grandes Mestres da Música Clássica, como se desse voz ao meu próprio Espírito.

Em 2014, após a concretização do 3 nível de Reiki, aconteceu algo inesperado, surpreendente e profundamente libertador. Como se tivesse voltado àquele momento intuitivo dos meus 13 anos de idade, eu, agora, quase a completar os meus 33 anos, voltei a escrever uma canção como se estivesse a beber um copo de água ... foi algo repentino, não pensado e natural. E assim, em 2 semanas escrevi dois ciclos de canções dedicados à grandiosa poesia de Jorge de Sena. E a partir daí, a composição nunca mais deixou de fazer parte do meu caminho.

O meu desenvolvimento espiritual permitiu-me aceder novamente à minha fonte de criatividade, uma fonte que antes se tinha revelado tão natural, mas que tinha sido interrompida por uma ideia de inferioridade. Liberta das correntes de ideias castradoras auto-impostas, e tremendamente presentes no consciente colectivo, componho desde então as minhas canções, intuitivamente e directamente do meu coração, dando a devida atenção ao que de mais verdadeiro e puro em mim existe, e tendo todo o cuidado de as reconhecer como linguagem pura. Não existe qualquer tipo de atrito, isto é, a mente e os seus juízos não interferem no momento da criação. a mente assume o seu papel como tradutora, mas nunca como instrumento qualificador que estabelece termos de comparação com o que possa existir na matéria. Como diz o Sadhguru, a nossa memória é finita, e se limitarmos a nossa realidade aos arquivos da nossa memória, estaremos sem dúvida alguma, a limitar o nosso poder de criação. Há que dar à mente, portanto, o seu devido lugar, há que abrir caminho para o coração e para a nossa realidade além da matéria.

A melodia é simples, porque é com simplicidade que pretendo partilhar a palavra poética e o Som. A melodia é simples, sobretudo, porque a minha missão está profundamente ligada às crianças e a canções que possam despertar nelas a alegria de viver e de brincar neste maravilhoso Planeta Terra. 

Refúgio, A Arte de proteger a Floresta - partituras incluídas no Livro/CD

Evidências

Porto, Março 2014 

Estreia a 9 de Outubro de 2014. Casa Museu Teixeira Lopes.

Ao desconcerto humanamente aberto
entendo e sinto: as coisas são reais
como meus olhos que as olharam tais
a luz ou treva que há n tempo certo.

De olhá-las muito não as vejo mais
que a luz mudável com que a treva perto
sempre outras as confunde: entreaberto,
menos que humano, só verei sinais.


E sinta que as pensei, ou que as senti
eu pense, ou julgue nos sinais que vi
ler a harmonia, como ali surpresa,


oculta que era eu vê-la agora,
meu desconcerto é o desconcerto fora,
e Deus um só pudor da Natureza.


Desta vergonha de existir ouvindo,
amordaçado, as vãs palavras belas,
por repetidas quanto mais traindo
tornadas vácuas da beleza delas;

desta vergonha de viver mentindo
só porque escuto o que dizeis com elas;
desta vergonha de assistir medindo
por elas as injúrias por trás delas


ao mesmo sangue com que foram feitas,
ao suor e ao sémen por que são eletias
e à simples morte de chegar-se ao fim;


desta vergonha inominável grito
a própria vida com que às coisas fito:
Calai-vos, ímpios, que jurais por mim!


Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.

Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,


um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,


tão quase é coisa ou sucessão que passa ...
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga eterno, o véu da Graça.

Marinha pousa a névoa iluminada,
e dentro dela os pássaros cantando
são crepitar das ondas doce e brando
na fímbria oculta e só adivinhada.

Verdes ao longe os montes na dourada
encosta pelos tempos deslizado,
suspensos pairam no frescor de quando
eram da sombra a forma congelada.

Ao pé de mim respiras. No teu seio,
como nas grutas fundas e sombrias
os animais pintados adormecem,

sereno sexa um amoroso veio.
Um após outro hão-de secar-se os dias
na teia ténue que das eras tecem.

Quando me encontro sempre sem poesia,
do ritmo ouvindo o cadenciar perfeito
em que as palavras passam como um dia
que é fluido e pálido, gelado e estreito,

sempre uma voz, que eu antes não ouvia,
me preenche o espaço entre o destino e o leito
de fogo e de cristal em que me deito
na música sem dor nem alegria.

Alguém que eu fui ou não cheguei a ser,
que alguém não tece tempo de viver
na ondulação do transitório acaso,

é por acaso que em mim próprio escuto,
qual do vazio ocasional refuto
a vacuidade inane do seu vaso.

Deixai que a vida sobre vós repouse
qual como só de vós é consentida
enquanto em vós o que não sois não ouse
erguê-la ao nada a que regressa a via.

Qua única seja, e uma vez mais aquela
que nunca veio e nunca foi perdida.
Deixai-a ser a que se não revela
senão no ardor de não supor iguais

seus olhos de pensá-la outra mais bela.
Deixai-a ser a que não volta mais,
a ansiosa, inadiável, insegura,

a que se esquece dos sinais fatais,
a que é do tempo a ideada formosura,
a que se encontra se se não procura.

Perdidas uma a uma as coisas todas,
os corpos e as estrelas, flores e rios
na construção do espírito sonhado,
humanamente vos haveis unido,

para de além de tudo ainda regerdes
apenas pó a ser cindido um dia,
que o que ficava, dissoluto o mundo,
a morte humana assim éreis num só,


ó deuses, formas de existir, presença,
tão sempre jovens e dourados mortos
de morte que é sol-posto ou madrugada,


ó deuses do universo! - a tarde cai,
e, em vagas vozes de crianças rindo,
cindido tudo, ó deuses, regressai.

Coroa da Terra

Porto, Março 2014
Estreia a 9 de Outubro de 2014. Casa Museu Teixeira Lopes.

Espiral

Um só poema basta para atingir a terra,
caminho de todos os poemas,
sinal de todas as graças,
poço de todas as águas,
tenham ou não tenham olhos que as chorem.

Oh poema caminhando ao encontro
de uma seiva tranquila
em canalículos de virgindade activa!
Oh poema suposto inevitável
enquanto homens desistam e se apaguem!
Graça de morte para uma ideia nascente;
olhar de torre antiga,
sobranceira ao adro restaurado...

Aqui era uma fonte.

Que os homens entendam,
que os homens lutem,
que os homens esmaguem
os sinais inventados.

O poema vem descendo e cruza-se com outros.

Aqui nunca houve um rio.

E o poema infiltra-se de perto,
deixando à superfície
uma ligeira espuma poética representando o poeta 
de olhos abertos para a espiral dos tempos.

Exame I

Estendo as mãos
eternamente as minhas mãos
e toco a realidade sem acreditar nela.

Há casos de que as mãos não perdem a luminosidade.
A crença que eu tenha vai delicada sobre elasbuscando a própria extensão com que as enchi.

Exame II

Realmente existe um mármore como existe um desgosto.

E a força que distrai os homens visíveis da presença ambulante

é comum às pedras e em especial aos mármores

na apreensão da mínima diferença.

Exame III

De mim converso as mãos erguidas em redor do teu rosto,
e do teu rosto a praia extensa que o vento alisou/ para sempre.


Não há pegadas senão o ruído das ondas.

Metamorfose

Para a minha alma eu queria uma torre como esta,
assim alta,
assim de névoa acompanhando o rio.

Estou tão longe da margem que as pessoas passam
e as luzes se reflectem na água.


E, contudo, a margem não pertence ao rio
nem o rio está em mim como a torre estaria
se eu a soubesse ter ...


uma luz desce o rio
gente passa e não sabe
que eu quero uma torre tão alta que as aves não passem
as nuvens não passem
tão alta tão alta


que a solidão possa tornar-se humana.

Humanidade

Na tarde calma e fria que circula
por entre os eucaliptos e a distância,
olhando as nuvens quase nada rubras
e a névoa consentida pelos montes,
névoa não subindo por não ser
fumo da vida que trabalha e teima,
e olhando uma verdura fugitiva
que a noite no céu queima tão depressa,
esqueço-me que há gente em cada parte,
gente que, de sempre, sofre e morre,
e agora morre mais ou sofre mais,
esqueço-me que a esperança abandonada,
a não ser de ninguém, é sempre minha,
esqueço-me que os homens a renovam,
que o fumo dos seus lares sobe nos ares ...
Esqueço-me de ouvir cheirar a Terra,
esqueço-me que vivo ... E anoitece.

Ocaso IV

Nenhum mundo é meu.
Todos estão em mim desde que existo.

E a minha voz nasceu para falar do último,
porque ele nunca existirá,e é incrível que não haja fim.

Zodíaco

Os deuses nascem quando a vida estreita
laços de olhar, em torno da memória;
lembrar com medo é refazer a história
de quantos deuses uma estátua é feita.


Surgem desígnios que a morte ajetia
ao jeito permitido ... Sim! Devore-a
a pura terra em água mais eletia,
que, ao chamar gruta à solidão marmórea,


dará, e a Deus, um cântico e um destino.
Se foi impunemente que menino
me demorei no tempo e não perdi


o bibe sujo que ficou como era,
tenho maior direito ao que se espera:
criei constelações e nunca as vi.


Glória

Um dia se verá que o mundo não viveu um drama.

Todas estas batalhas, todos estes crimes,
todas estas crianças que não chegaram a desdobrar-se em carne viva
e de quem, contudo, fizeram carne viva logo morta,
todos estes poetas furados por balas
e todos os outros poetas abandonados pelos que
nem coragem tiveram de matar um homem,
toda esta mocidade enganada e roubada
e a outra que morreu sabendo que a roubavam,
todo este sangue expressamente coalhado
à face íntegra da terra,
tudo isto é o reverso glorioso do findar dos erros.


Um dia nos libertaremos da morte sem deixar de morrer.