Vou contar-te um segredo. estou sozinha, profunda e magicamente sozinha como está o mar. Estou quieta num ponto da existência, um ponto ensimesmado onde os olhos se abrem como tremendos muros de água. Toda a idade ressoa nestes gigantes. Todos os quartos rasgados em sulcos, todos os quartos em flor, todos os quartos negros de medo, todos os quartos raiados de sol, a primeira e a última explosão estelar, os gritos do primeiro e do último recém-nascido! 

Estou sozinha, profunda e magicamente sozinha como está o mar. Escuta bem enquanto lês estas palavras, elas formam uma concha de onde nascerá a pérola que me entregarás quando tudo acabar. Escuta uma e outra vez o rumor: estou sozinha, profunda e magicamente sozinha como está o mar. Sente, neste instante, ganhou forma um barco à deriva, quebrou-se a vela, perdeste as sílabas e as ondas caem já longe, nenhuma palavra tem traço neste lugar, só o oco te mantém à tona, só a leveza do vazio te mantém firme sobre as ondas.

Pedra redonda


Tenho a mão direita nas pedras molhadas do mar. Ao nível dos meus olhos cai a rebentação das ondas, água pesada que trabalha a matéria até que se torne redonda. Espalha-se a espuma e tudo é branco. Ao fundo levantam as gaivotas no instante anterior à chuva que me molhará o rosto. Mantém-te à superfície ... mantém-te à superfície e leva uma pedra redonda contigo. Diz o mar.

Português, diria, é ter o mar à frente dos olhos e saber que ali está tudo e nada mais.

Esquece cada palavra que atiras à vida. Deixa que elas corram para o fundo do mar.  E aguarda, atento à observação das ondas, o retorno de cada sílaba.

Julgar fatal o que só cá está para ser transformado, nós, é andar com a bússola partida.

É na canção que o teu barco navega sobre a linha dourada no meio do mar. 

Sol e pedras redondas ... Entender o que há além da simplicidade é desfazer-se em essência. Ali principia continuamente a vida, ali, aonde nada importa saber. Se há palavras que importam? Só as que transformam, de nada é feito o pensamento. 

O tempo é a medida da sabedoria. 

Sorri às flores que tardam e pousa os olhos em ti enquanto esperas, 

estás a tornar-te um sábio. 

Há um índio que segura uma serpente em frente a uma fogueira: o amor é o fogo interior: porta luminosa que queima os véus da mentira. Por aquela porta não passa nenhuma imagem, desfaz-se em mil faúlhas à entrada: a imagem que amas é só fogo de artifício: uma mentira a arder. Por aquela porta só entra a verdade: a pureza: eis um Milagre: nunca vês os teus olhos porque vês só a imagem de ti mesmo, mas revês-te puro e inteiro nos olhos daquele que te despe da imagem de ti mesmo. 


Do Verdadeiro Querer

É quando nós nos perdemos dos outros, que um leve e epidémico desespero habita o peso de cada objecto. Todos os objectos mortos pelo corpo, morrendo-nos o corpo pelos objectos ... Onde foi que nos desencontramos? É por nós mesmos que nos damos a tanta morte? 

Porém daquela alma fora de nós, (nós daquela Alma) são agora mais nítidos todos os fragmentos de música... Que estranho e triste contra senso...parece-nos que a alma ganha gravidade sobre a respiração, de tanto suster o fôlego, nós, estupidamente alegres e imersos na matéria colorida e morta daqueles mil objectos. Morrerem-nos assim as horas, tendo todo o peso da alma sobre o coração.

E a insistência daquela voz, da Voz, que por vezes ouvimos de nós para nós, objectos...que tens no pulso, tu? Horas que se esvaem...não cumpres o sangue que te corre, não te importas dele, cumpres as horas e as horas só, que se esvaem pelos pulsos, tu objecto de ti mesmo, digo-te... deixaste que as palavras te morressem na boca, e na boca de sede te morreram...porém, aquela música...

Digo-te: numa segunda camada de ti e de quem amas, uma só de vós mesmos...numa segunda camada por sobre a morte a que te abandonaste, nessa segunda camada, celebra uma palavra... Diz-lhe, a quem amas: aproxima-te de mim, aproxima-te e diz-me quem tu és, tu único, belo, só tu, diz-me uma palavra de ti e para ti, canta-me essa palavra no espaço do nosso silêncio, só nosso, o nosso íntimo silêncio...e do que morre por sobre nós nada nosso será, do que morre por sobre nós nada sentido terá; diz-me, amo-te por quem sou, e por quem és, amo-te porque é no Amor, e só no Amor que o corpo me não morre, amo-te porque nada mais importa senão o nosso íntimo silêncio, aquele por onde ressoará a verdadeira música quando sentir mais uma vez as tuas mãos sobre o meu rosto...ali, por onde tudo é habitado senão de nada...de nada para além de nós mesmos, nada, absolutamente nada para além de nós mesmos, de mim e de ti, é lá que caminhamos na Paz, onde tudo é feito de nada; onde tudo de nada ser, renasce no sentido pleno do nosso verdadeiro querer.